Maria Isabel estava internada na UTI nos primeiros dias de vida, seus jovens pais eram bem humorados e interagiam com afeto e delicadeza. Me contaram que haviam se conhecido na faculdade de matemática, achei diferente. Rebeca e Vinícius, duas carinhas inteligentes e uma filha amada. Rebeca – mãe, de cabelos cacheados e óculos, tinha aquele ar de menina dedicada e gentil, eu saberia mais tarde, que seu conhecimento e sabedoria iam além de equações exatas.
Um dia, vi um pé de Maria Isabel, examinei o outro, segurei os dois em minhas mãos. Ela tinha um dedinho que disputava lugar e passava por cima do outro, achei lindo. Comentei sobre a característica meio cinderela, o pezinho único que merecia um sapatinho de cristal, com espaço extra para o dedinho atrevido. A mãe achou graça e tirou o próprio sapato, balançou os pés alternados: a mesma sobreposição entre os dedos. Achei fofo, e me descobri admiradora de pezinhos originais.
Maria Isabel tinha uma cardiopatia complexa e rara, envolvia os 2 lados do coração e suas válvulas, a cirurgia era de planejamento quase impossível. O coração batia apressado, dependia de medicamentos intravenosos e contínuos, que ajudavam a desviar fluxos e oxigenar todo aquele corpinho minúsculo. O tempo passava depressa demais, o desafio fazia a equipe médica tomar decisões rápidas. Todos esquentavam a cabeça, dia e noite, em reuniões e em travesseiros, até que um dia, não precisou mais. Maria Isabel se despediu assim, subitamente, como poderia acontecer, todos sabiam. De alguma forma, ela pareceu adiantar uma decisão muito difícil.
Entramos no quarto e iniciamos o atendimento protocolar de uma parada cardíaca, mas conhecíamos a fragilidade daquele coração. A mãe, muito calma, sentou-se de frente e observou. Com dor e doçura, não interferiu no andamento daquele processo, mas se adiantou ao pedir para pegá-la no colo, mesmo antes da nossa sugestão. Após longos minutos e diante da certeza de irreversibilidade, fomos desacelerando os movimentos, reduzindo o tom de voz e deixando o silêncio se espalhar no quarto. Ajudamos a colocar Maria Isabel no colo da mãe, que mantinha um semblante de absoluta paz. O pai havia saído pouco antes do acontecimento e, quando voltou, encontrou a bebê sem dispositivos e no colo da mãe, uma cena sonhada, mas deslocada no tempo, alguma coisa estava errada. Rebeca explicou em tom calmo ao marido, saímos do quarto em respeito.
Não senti culpa, mas um incômodo, deveria ter feito mais. Me martirizei por não ter feito logo um carimbinho de pé, tive tempo e tive chance, até contexto, o pé repetido em uma nova geração. Deveria andar com uma esponja de tinta e um papel em branco nos bolsos. Eu gostaria de ter produzido uma lembrança que não fosse foto, mas um toque de um pezinho ainda quente, uma impressão digital espelho, de um lado pé, de outro mão, bochecha ou nariz. Um portal de cor, perfume e sentimento.
Eu queria escrever, mas o tempo passou, o ano virou e eu entrei de licença médica surpresa. Deixei escapar a história de Maria Isabel para cuidar de uma história pessoal. Um dia, mandei mensagem para Rebeca, para dizer que não havia esquecido. Nos encontramos, alguns dias depois. Ela de luto, ao final de uma história de meses de gestação, de semanas de esperança e ressignificados, eu, no início de uma história desconhecida. Não sei como esse encontro aconteceu, mas decidimos tomar um café e dividir nossas histórias de pontas tão soltas. Acho que queríamos um abraço e achamos sentido e conexão.
Combinamos um café a meio caminho de nossos endereços, sentamos ao ar livre e não sabíamos como iniciar a conversa. Ela me mostrou um álbum de toda a gestação, desde a descoberta da gravidez, chá revelação, preparativos para o parto. A breve história de Maria Isabel estava contada em um belo livro de capa dura. Toda a felicidade daqueles meses me foi exibida em fotos alegres, com família, amigos. Rebeca me mostrou o quarto, o enxoval e a foto de um sapatinho bordado. Nele, uma fórmula matemática, a Identidade de Euler, a equação mais bonita da matemática, segundo Rebeca e seus pares. Eu achei graça, não poderia imaginar que existisse uma beleza tão específica. A equação envolve não sei o quê elevado a pi, que mais um resulta em zero, ou algo assim. Na explicação, a fórmula representa o infinito. Achei bonito.
Pensei no sapato que não calçou o pezinho cinderela, o pezinho de dedinhos sublimes, o pezinho que não carimbei de presente. Rebeca me contou que o sapato de pontinhos celestiais ocupa um lugar especial na casa, um altar de lembranças escolhidas. Naquele dia, quando ela fechou o álbum, fiquei refletindo. Algum tempo depois, me dei conta de que, aquele detalhe sobre o infinito havia me ensinado uma equação bonita, mas não aprendi nada sobre matemática.
Suzana Berlim Junho/2025


