Cleber Jr chegava acompanhado, mãe, pai e mais um tanto de super-heróis bonecos. Os brinquedos eram colocados no batente da janela, eram guardiões que vigiavam o menino dia e noite. Jr se distraía com seus amigos vigilantes, não era muito receptivo conosco, aos 6 anos, estava chateado com a rotina mensal daquele tratamento. As sessões de quimioterapia implicavam na internação por alguns dias. No começo da pandemia, os pais ajustavam-se aos estudos e trabalho em home-office, neste caso, hospital-office.
Durante a quarentena, os três membros da família só tinham contato com outras pessoas na UTI, mesmo assim, somente com pessoas da equipe médica, nenhum amigo, nenhum parente, visitas estavam proibidas. Quando iam para casa, a mesma restrição, ninguém entrava, ninguém saía. Foram meses sem escola, parque ou lanchonete. Naqueles dias de UTI, aproveitavam a maior densidade demográfica possível, eles se moviam da cama para o sofá e vice-versa, conversavam, dormiam, assistiam TV e recebiam nossas visitas para exames, refeições e medicamentos.
A mãe sempre foi muito parceira, confiava na equipe e nos ajudava com os cuidados. Sua gentileza era única e ela me presenteou com algumas histórias. Uma vez, passou pelo corredor com um bolo enorme e eu me fiz de síndica. Como assim, um bolo? A dieta dele é tão orientada, não pode vir coisas de fora. Na verdade, eu sempre fiz vista grossa para os pequenos contrabandos, não sei por que naquele dia estava tão rigorosa. Talvez o tamanho do bolo tenha me chamado a atenção, aquele embrulho enorme e sem disfarce passando pelo corredor, sem nenhuma barreira. Talvez alguma preocupação extra do dia tivesse me deixado mais rabugenta. A mãe falou alguma coisa e seguiu para o quarto, eu me sentei de frente ao computador, cheia de razão. Pouco tempo depois, a mãe estava chamando, me avisaram. Observei pela câmera, pai, mãe e filho em volta da mesinha, um bolo e docinhos intactos. Ela estava esperando a equipe. O dia era importante, a última sessão de quimioterapia, e a mãe chamou todo mundo para comemorar. Naquele instante, a equipe recebia outra criança, todos estavam ocupados e o plantão estava corrido. Eu atendia aqui e espiava a câmera, Jr impaciente. Organizei um mini revezamento da equipe, cada um vai lá um pouquinho, gente. Dr Murilo foi, depois eu. Sobre o bolo, estava escrito – aos heróis da saúde – e o nome do hospital. Minha cara espatifada no chão, empurrei com o pé para debaixo da mesa. Para além disso, ainda ganhei um presente, uma sacolinha com sabõezinhos e cremes muitos cheirosos. A mãe comprou presentes para todas as pessoas da equipe, todas. Cada um saiu com um pacotinho perfumado. Teve bolo, docinho, perfume e eu lá, fingindo não ter dito nada antes, sorridente e agradecida. Vi Jr comendo bolo caído e amassado na cama, pedi proteção e mais nada, nada a declarar.
Depois de um tempo, Jr estava em casa e curado, não sabia por onde recomeçar. Sua percepção de mundo, como memória, começou dentro do hospital, ele precisava não apenas recuperar, mas viver tantas coisas. Seu aniversário se aproximava e a mãe perguntou o que ele queria para a festa, qual seria o tema. Quando ela me contou, pensei nos super-heróis, naquela coleção incrível de bonecos corajosos. Nada disso. O menino respondeu que queria uma festa com pessoas. A mensagem da mãe era um convite, um pedido dele. Uma festa com pessoas. Com pessoas. Eu repeti isso muitas vezes para que um dia deixasse de me emocionar, nunca tive sucesso. Quando eu contava para alguém, meu peito apertava, eu repetia para todos o meu convite e conferia olhar e sentimento resposta, não estava sozinha.
Ao final daquele mês, já estávamos sem máscaras e circulando com alguns cuidados por aí. Eu compareci à festa onde encontrei sua família e seus amigos. Dr José Carlos, o oncologista, não pode ir, eu cheguei sozinha, com um embrulho e uma mensagem positiva da sua torcida lá do hospital. Circulei sozinha pela festa, mesa do bolo, salão, brinquedos, campinho de futebol. Me sentei ao lado do menino que descansava da partida, roubei uma foto, discreta. Jr estava suado, sério, brincou e brigou no futebol, fugiu das fotos. Eu guardei o celular, culpada e feliz. O menino forte e galante estava ali, em comemoração pela sua idade e saúde, à sua volta, muitos presentes.
Suzana Berlim, 2024

