O grande Bernardo
Existem famílias parceiras e existem os pais do Bernardo. Pais de gêmeos, Bernardo e Miguel, bebezinhos de poucos meses que entraram na temporada fora de época e infinita das bronquiolites. Quando a pandemia de COVID pareceu perder forças, no final do ano de 2021, o isolamento não era mais tão restrito e muitas crianças pequenas foram expostas aos outros vírus respiratórios que pareciam apenas aguardar a oportunidade.
Bernardo foi internado primeiro, ficou grave mas era forte e explicamos que tudo ficaria bem. Miguel foi internado depois, menos grave, teve alta após pouco mais de uma semana. Bernardo ficou. Os pais alertaram que sempre houve uma diferença entre os dois, Bernardo era menor, respirava sempre com um pouco mais de dificuldade. Tivemos que entender outras características sobre a sua saúde. Cabeças pensantes estudaram e avaliaram propostas de outras especialidades. Descobrimos uma cardiopatia que poderia explicar seu quadro, mas havia dúvida sobre a complexidade. As semanas passavam e nosso apego por aquele bebê só aumentava. Bernardo teve momentos de melhora e piora, a alta parecia distante e incerta.
Durante quatro meses, Bruna e Tiago revezaram-se para cuidar do pequeno Bernardo e do irmão, não havia descanso quando iam para casa. Miguel era um bebê pequeno que também exigia atenção. A jornada dos pais fazia qualquer um pensar como era suave trabalhar na UTI. Bruna e Tiago iam e vinham, cansados, mas sempre animados, nunca reclamaram de seus plantões.
Bernardo virou o caçulinha, o mascote, o queridinho de todo mundo. Seu olhar profundo e confiante fazia com que o mais sério profissional se apaixonasse. Era unanimidade. A UTI passava por semanas mais difíceis e por temporadas mais amenas, ele era a referência na divisão dos pacientes, metade para cada plantonista. “Estou do lado do Bernardo”, assim começamos vários plantões. Como se fosse possível não estar ao seu lado, em dedicação, torcida e orações.
Bernardo foi submetido a cirurgia cardíaca, fechamento do canal arterial, aprumou-se finalmente e teve alta em agosto. Nos permitiu uma sessão de fotos das mais emocionantes. Ele e seu pai, o mais carioca, flamenguista e “papo reto” que já passou na unidade. Sua “parada” para embalar o sono do pequeno não foi “caô”. Registramos aquele dia em foto e vídeo para que lembrem que o que foi difícil já foi, já é passado.

No dia da alta, recebemos o vídeo do reencontro dos irmãos em casa, olharam-se curiosos e mataram a saudade, bem-querer de gêmeos, coisa deles. Já a nossa saudade permanece, de toda a família, do corajoso Bernardo, eleito por nove entre dez profissionais, gostosura do ano.
Suzana Berlim (2022)

